28 de julho de 2015

ABERTO ATÉ TARDE

Foto de Tim Slessor

Querida filha.

Hoje, 2 litros de café não devem chegar para manter o cérebro aberto e os olhos a pensar. Até a inspiração parece dormente. As noites sucedem-se acordadas e tu, pequena punk, não dás tréguas. Pareces não querer abrandar o ritmo alucinante. O Verão está aí, a infância está aí, é agora a altura de aproveitar, porque tudo passa em segundos. De certa forma até entendo.

Apesar de às vezes duvidar, penso que sou boa mãe. Esforço-me para ser, e só isso já é de valor. Sou chata.
• Quero que comas iogurtes naturais (sei que preferes os de aromas), mas é para teu bem. Menos químicos.
• Obrigo-te a lavar os dentes de manhã e à noite todos os dias, é uma seca, mas tem que ser. Tu resistes, mas lá acabas por me fazer o favor, só para não levares com um par de olhos irritados.
• Quero que te sentes na sanita de manhã, porque acordas com a fralda seca e tu detestas. Mas são as regras que tenho que te ensinar, porque vivemos num sistema pouco flexível e não é bom usar fraldas mais de 3 anos. Além de que polui muito o planeta e a minha carteira.
• Não te deixo ver televisão muito tempo nem brincar com o telemóvel. Outra chatice, porque realmente parece não haver nada mais animado. Mas há, um dia vais ver que tenho razão.
• Digo-te que na escada e na entrada do prédio não há negociações, quem manda sou eu. Só porque se fores tu a delinear a estratégia demoramos 20 minutos a subir ou a descer as escadas: queres brincar com o corrimão, dar saltos em todos os 120 degraus, ver as bicicletas estacionadas na porta de todos os vizinhos, observar os pormenores dos tapetes e ver as diferentes manchinhas na madeira. Questiono-me se os outros bebés também serão assim.
• Quero que venhas quando eu chamo sem ter que repetir 75 vezes o teu nome, que te sentes na cadeirinha à hora da refeição sem ter que correr atrás de ti para pôr o babete, mas principalmente, quero que durmas durante a noite sem acordar às 2h porque queres água. Sem acordar às 3h porque a chucha caíu. Sem acordar às 4h porque queres uma massagem. Sem acordar às 5h porque tens um cabelo na chucha. Sem acordar às 6h porque queres ver televisão ou para dizer "já dormi mamã!". Porque precisamos de dormir mais horas seguidas. É mesmo importante.

Eu sei que são muitas coisas.
Afinal ter 2 anos e 4 meses é mais exigente do que deveria ser. Os pais (e a sociedade) começam a fazer pressão muito cedo. Na verdade queremos em primeiro que sejas feliz e saudável. Logo em segundo queremos que durmas descansada. O resto vem depois.
Não prometo nada em troca, porque conseguires isso já vai ser um prémio para ti própria. Continuaremos a ser pais dedicados, continuaremos a fazer sopa de folhas no parque, a ir comer bolas de gelado de manga, a saltar em todos os degraus desde casa até à escola, a apanhar fruta em casa dos avós, a desenhar baleias, a fazer bolo de limão juntas, a estender e a apanhar a roupa em equipa (tu dás as molas e eu prendo na corda), a fazer tranças no cabelo, a dançar coreografias na sala, a fazer peixes de plasticina, a observar as poças de água na praia, a ler histórias sobre pinguins que voam. Se dormires, só pode melhorar. Porque a mãe e o pai vão poder fazer isto tudo sem ter que beber tanto café, e isso facilita muito a vida de uma pessoa.

A tua mãe escreve, mas aposto que o teu pai assina por baixo. (Costumamos concordar nestes assuntos)

25 de julho de 2015

3 X IRRA

Há uns minutos li este artigo sobre as novas crianças totós que não têm direito a intervalos e brincam de menos porque os pais trabalham de mais (entre outras coisas),


e ainda li este, já com uma angústia na garganta, que comprova que a espécie humana tem, não raras vezes, um Q.I. inferior ao de uma hiena,

e começo a acreditar que o planeta azul não merece uma coisa tão pateta como ser ocupado por nós. E a acreditar que se por alguma razão a natureza, o Cosmos, Deus, Alá, ou Shiva, ou seja qual for a entidade em que se acredita, decidir transformar isto tudo em micro poeiras, não se perde assim tanta coisa boa como isso. Que tristeza. Nestes dias sinto-me infeliz e impotente. Como é que conseguimos ser tão excepcionais em algumas coisas e tão idiotas noutras? Porque é que somos tão hábeis a criar sistemas anti-natura e depois tão ridículos a tentar viver neles? Há dias em que leio os jornais e fico totalmente desmotivada. Sou demasiado idealista. E provavelmente ingénua. Sinto-me a Mafalda, a Contestatária. Espero que pelo menos as escolas mudem um bocadinho antes de a punk Zola ir para o ensino básico.

(se só houver tempo para ler 1 dos 3 artigos, sugiro fortemente o primeiro, que alerta para uma série de coisas importantes e é muito pertinente).



22 de julho de 2015

EM CASO DE DÚVIDA, ALEGRA-TE


Hoje fui a uma caixa multibanco e dei de caras com este autocolante, que achei espectacular. Depois achei espectacular alguém ter escrito "Boa Ideia" e por sua vez alguém ter tentado remover o autocolante. Há muitas visões sobre uma mesma coisa. Acima de tudo é excelente podermos manifestar o que vai dentro das nossas cabeças, e a ironia deste autocolante alegrou mesmo o meu dia.

Nota: Este post não tem pretensões de puxar a brasa à sardinha de partido A ou B. Apesar de eu votar sempre, o meu voto tem sido desprovido de crença, tem sido mais um descargo de consciência. Ainda estou à espera do super-partido, o partido Robin, como lhe costumo chamar, no qual possa acreditar. À pergunta "Então porque é que não fazes qualquer coisa e fundas tu o partido Robin?", respondo "porque seria um erro, os mecanismos políticos não fazem parte do meu raciocínio, iria ser um fiasco total". Mas se calhar vou tentar seguir o exemplo do autor deste autocolante e ter uma atitude mais interventiva através da arte.  =)

17 de julho de 2015

O QUE FIZESTE ONTEM À NOITE?

The Bellrays (foto do Luis Duarte)

Stone Cold Lips (foto do Luis Duarte)

Prometi que no fim de tantos dias sem escrever no blog, quando regressasse tinha que ser por um bom motivo. E eis que fui sair à noite. Parece uma coisa vulgar, mas para mim é coisa rara. E houve bónus: concerto de Stone Cold Lips e de Bellrays no Sabotage. Não sou blogger de música e não me vou pôr aqui a tentar dizer coisas do tipo "o ritmo frenético das guitarras contrastava com a dureza da bateria" ou "a voz melódica tinha tons blábláblá", vou ter que contar as coisas de outra maneira. À maneira Mexicola. Foi um granda concerto!

Primeiro os Stone Cold Lips, banda portuguesa que já fui ver mais do que uma vez e sobre a qual não me vou estender muito porque sou suspeita. Depois os Bellrays, americanos, para os quais estava um pouco céptica, confesso. Falta de conhecimento. Tinha ouvido alguma coisa na web, mas não fiquei convencida.

A sala estava cheia. Quando entraram em palco, destacaram-se logo duas personagens: uma era a representação fiel do Andy Warhol, como se tivesse aterrado ali de paraquedas, directamente dos Velvet Underground, outra era uma mistura de Sharon Jones com Aretha Franklin do rock. Uma mulher baixa e compacta com uma voz que saía lá do fundo e fazia estremecer a cave. É claro que a energia que as pessoas transmitem ao vivo, está longe da que passa  num vídeo do youtube, por isso, naturalmente, fui obrigada a dizer que sim à pujança dos quatro em palco. Especialmente durante o inesperado Whole Lotta Love dos Led Zeppelin, que tocaram de tal forma que levaram a assistência ao rubro. Foi muito bom. Nada como o black power para nos agitar um pouco o coração.

Enfim, no final da história, ser um pouco groupie tem o seu preço (elevado). Às 3h30, quando toda a gente tinha a sua linda cabecinha numa almofada fofinha eu andava a carregar amplificadores, guitarras e pedaleiras com mais 50Kg que eu. E hoje dor de cabeça. Só que não trocava por nada.

8 de julho de 2015

DIA ASSIM ASSIM



Ouvir música deixa-me às vezes muito bem-disposta, outras vezes muito pensativa. Estava para aqui a pensar que a capacidade de os seres humanos fazerem música hipnotizante e se expressarem de forma emotiva noutras áreas é das poucas coisas que os salva de serem...nem tenho coragem de procurar o adjectivo. Estava embalada, mas assustei-me.
Depois voltei ao pensamento de sempre, como teria sido feliz a cantar numa banda destas ou a dançar, ou a fazer música. Não sei porque é que nunca pus essa possibilidade em cima da mesa, se calhar achei que não ia dar em nada. Acho que a correria dos dias nos afasta dessas opções. Mas o facto de apreciarmos muito o que os outros fazem bem, está a milhas de significar que nós também o poderíamos fazer bem. Deve ter sido por isso que me fiquei na plateia a ser uma muito boa apreciadora de coisas. Vou trabalhar. É melhor. Contribuir para o pib. Deixa lá essa coisa da música agora, ouves logo. (A voz da consciência devia ter volume controlável. Ou mesmo MUTE).

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Entretanto o Vincent Van Gogh disse-me numa frase porque é que estou errada:


"Se ouvires uma voz no teu interior que diz "não és um pintor", 
então pinta de todos os modos e essa voz silencia-se."


6 de julho de 2015

OH EUROPA, VÁ LÁ, NÃO SEJAS MÁ

Com os gregos II (parte I aqui)
Bom, já sei que uma mão cheia de gente vai achar que sou louca, sonhadora, de esquerda, lenta de raciocínio, surrealista, utópica, etc., etc. mas ontem, quem mostrou que tem fibra e carácter foi a Grécia. Na Europa de agora, em que é normal prestar vassalagem, em que os países com mais dinheiro coordenam o futuro e a vontade dos outros, as cabeças dos gregos (e as nossas, não esquecer) foram sendo lentamente espremidas contra o passeio. As ameaças de portas fechadas e de abandono à sua sorte foram sendo ditas cada vez mais alto, até serem gritadas.
Ainda assim, alvos de algum terrorismo psicológico, os gregos encontraram coragem e disseram que preferem não comer nada do que engolir mais sapos. Ainda bem que tiveram essa coragem (que nós nunca tivemos). Porque sacudiram algumas verdades que se foram instalando e algumas pessoas, que estavam confortavelmente dormentes nas suas cadeiras, também. E relembraram coisas esquecidas.
Mas a menina perdeu a cabeça? Não vê que pode correr tudo mal? Provavelmente os próximos anos serão ainda mais difíceis, se os donos arrogantes da Europa arrogante fecharem as suas portas arrogantes, mas os gregos nunca disseram que não pagam os empréstimos, só disseram que precisam de outra forma de os pagar, mais tempo, outras fórmulas, não sei (algures na Europa alguém recebe de certeza salários milionários para resolver estas equações de forma eficaz, não entendo porque é que no meio de tanto génio, doutoramentos em política e economia, tudo tem vindo a falhar).
E esta ideia de perguntarem às pessoas o que elas acham? Era o que mais nos faltava! Pois foi. As pessoas puderam dar a sua opinião. Realmente há manifestações que se podem tornar incómodas.
Mas ainda tenho perguntas de criança: como é que isto foi acontecer? Então não vê que os gregos pediram mais dinheiro do que o que podiam pagar? Todos temos que pagar as nossas dívidas. Claro que sim. Mas porque é que desde que temos moeda única a distância entre uns e outros ficou subitamente tão grande? E uns (os mesmos de sempre) ficaram com trabalho, produtividade e riqueza e outros com dívidas? Caramba. Como coisas simples se complicam!

P.S. (Que ninguém se fie nesta opinião de artista, que esta gente não percebe nada de business)
É verdade, nem de pibs, dívida externa, Goldman Sachs, troika, essas coisas, mas deixei-me levar pela emoção.

3 de julho de 2015

HORA DE ALMOÇO


Tenho ouvido muito esta banda agora e adoro estes videoclips de série B.
A Josefina está imperdível a partir dos 2min. ♡ ☄ ☾ 

1 de julho de 2015

ELE ESTAVA COM A PELE SECA


Ela, o bebé Alberto, o sofá, a televisão, todos precisavam de um tratamento intensivo de pele.
#mamãagoralimpatudo